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CIRURGIA DESCONECTIVA NAS EPILEPSIAS REFRATÁRIAS. REPERCUSSÕES DA CALOSOTOMIA SOBRE A NEUROFISIOLOGIA DO CORPO CALOSO.

Dr.Paulo Breno Noronha Liberalesso
Especialização em Pediatria e Neurologia Infantil – HPP
Pós-graduação em Epileptologia e Mestrado em Neurociência – UNIFESP
Doutorando em Distúrbios da Comunicação/Otoneurologia – UTP
Chefe do Laboratório de EEG Digital – HCV Filial do Paraná

INTRODUÇÃO

Epilepsia é uma doença de elevada prevalência em todo o mundo. Estima-se que em torno de 0,5 a 1% da população mundial seja afetada. Estudos populacionais apontam que em torno de um terço dos indivíduos epilépticos não obterá controle completo, nem mesmo satisfatório, das crises convulsivas com o tratamento clínico, ou seja, somente com o uso das drogas antiepilépticas (DAE). Diversos estudos populacionais que sugerem este percentual de refratariedade têm sido realizados em países desenvolvidos, onde a disponibilidade e a variedade das DAE são consideravelmente maiores que em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Por este motivo, é bastante provável que o percentual de epilepsias clinicamente refratárias no Brasil seja superior a 1/3 dos casos diagnosticados.

Embora em uso há mais de uma década, as chamadas “novas drogas antiepilépticas”, como a oxcarbazepina, lamotrigina, vigabatrina, tiagabina, gabapentina, levitiracetam, zonizamida, felbamato e topiramato, não reduziram de forma significativa o percentual de pacientes epilépticos que evoluem com crises refratárias. Por outro lado, a evolução tecnológica no campo da investigação neurofisiológica, através aparelhos digitais de registro eletrencefalográfico e monitorizações invasivas, associadamente ao desenvolvimento de equipamentos de ressonância magnética com maior capacidade de definição de estruturas e lesões corticais e subcorticais, propiciaram o surgimento de novas técnicas para o tratamento cirúrgico das epilepsias.

De um modo geral e didático, os pacientes portadores de epilepsias clinicamente refratárias, portanto candidatos à investigação pré-cirúrgica, podem ser divididos em quatro grandes grupos: (1) um grupo de pacientes no qual a zona de início ictal pode ser precisamente identificada havendo coincidência entre os exames neurofisiológicos e os exames de neuroimagem; (2) um grupo de pacientes no qual a zona de início ictal é primariamente bilateral (epilepsia generalizadas); (3) um grupo de pacientes no qual a zona de início ictal, embora seja conhecida e restrita a um hemisfério cerebral, envolve áreas corticais eloqüentes; e (4) um grupo de pacientes nos quais a zona de início ictal não pode ser determinada através da semiologia das crises, nem dos exames neurofisiológicos e de neuroimagem.

Somente os pacientes do grupo 1 podem ser submetidos às denominadas “cirurgias ressectivas com finalidade curativa”, ou seja, procedimentos cirúrgicos cujo objetivo é remover por completo a zona de início ictal visando o controle completo das crises convulsivas. Os pacientes do grupo 2 não podem ser submetidos à cirurgias ressectivas já que a zona de início ictal é ampla e bilateral. Neste grupo, em casos específicos, pode haver indicação de cirurgias paliativas, como a calosotomia. Embora seja assunto algo controverso em alguns serviços de epilepsia, os pacientes do grupo 3 não são rotineiramente operados pois a zona de início ictal ou mesmo o circuito epileptogênico envolve intensamente áreas corticais motoras, sensitivas ou da linguagem (as denominadas áreas corticais eloqüentes). Nestes pacientes, admite-se que as seqüelas pós-operatórias seriam tão importantes que inviabilizariam a indicação do procedimento. Nos pacientes do grupo 4 a impossibilidade cirúrgica reside, evidentemente, no fato de não ser possível determinar qual área deva ser abordada cirurgicamente. Felizmente, o número de pacientes pertencentes ao este grupo tem sido cada vez menor como resultado da evolução tecnológica dos equipamentos e técnicas de investigação pré-operatórias.
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